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por Bruno Moreno

Uma das ferramentas possíveis para entender e avaliar as Unidades Pacificadoras da Polícia Militar do Estado do Rio (as “Upp”) é olharmos parte de sua inspiração e modelo. Neste caso, a mirada pode ser colocada sobre as práticas e os resultados dessas práticas em Medellín, Colômbia, local de ações políticas de segurança pública desde a década de 90 e que teve seu incremento a partir do início desse século com operações armadas (Operación Órion e Operación Mariscal) e de cunho mais amplo, baseadas na intenção de ações sociais e cidadãs (a partir da prática dos governos de combater o narcotráfico através do desenvolvimento econômico,integração da vizinhança com relação a segurança, desarmamento e aumento de investimento no campo cultural e social).

A comparação, no entanto, deve ser feita com o cuidado inerente às diferenças notáveis entre as duas cidades, realidades, cultura, nível e forma da violência e dos grupos armados.

O “Modelo Medelín” está longe de representar unanimidade na idéia de efetividade de combate ao narcotráfico. Junto com o suposto sucesso da diminuição das taxas de homicídios, temos leituras que criticam o abuso da forca policial colombiana, os acordos ilegais entre governo e as Aucs, além de condicionarem essa redução a fatores que não são originadas das políticas de segurança efetuadas, tal como a supressão de uma gangue por outra (falsa estabilidade).

Para acirrar ainda mais o debate, os novos dados de homicídio na cidade nos leva a questionar a longevidade e os mecanismos das políticas no caso colombiano. De acordo com matéria do jornal “El Tiempo”, de 6 de janeiro de 2010, os dados de homicídio subiram 64% de 2008 a 2009, sendo cometidos principalmente por armas de fogo e por assuntos relacionados ao narcotráfico.

No Rio de Janeiro, as vozes são dissonantes com relação à repressão policial, mas parecem encontrar-se no que diz respeito à necessidade de uma política social mais ampla nos espaços populares.

O que consideramos fundamental é não condicionar o olhar da sociedade civil a atitudes de força, baseadas na idéia estigmatizada desses espaços como o locus geral da ausência, e nem na supressão desses grupos armados como solução única que confere “humanidade” a esses espaços.

Como diz o mesmo sociólogo Jaílson de Souza, é preciso entender que os grupos armados em favelas estão dentro de um espectro mais amplo e complexo de domínio territorial associado a uma rede de narcóticos e armas exterior a esse território (tráfico de armas, sonegação fiscal). Por isso, é fundamental deslocarmos o olhar para o entendimento de que “a favela não é violenta, mas sim é o território da cidade mais atingido pela violência”. O que não significa o imobilismo diante dessa afirmativa. Como bem aponta Luiz Eduardo Soares, apesar das políticas que visam prevenir a violência criminal não serem políticas de longo prazo, por não agirem sobre as “macroestruturas socioeconômicas”, não devem ser negadas enquanto “soluções de curto prazo”, já que experiências nacionais e internacionais provam a possibilidade de combinar “a natureza preventiva com presteza de resultados”.

Para reafirmar a importância do olhar nessa questão, terminamos com uma citação de Frantz Fanon ao descrever as ações colonizadoras na África em meados do século passado. Embora não queiramos comparar realidades, achamos interessante notar a semelhança dos olhares e dos movimentos entre um espaço tido como “caótico” e as forças “ordenadoras” desse espaço. O que nos remete mais uma vez à necessidade do fortalecimento de uma ação mais ampla da presença estatal nesses espaços. Uma ação que integre e que amplie as soluções da “violência” de um campo localizado (os espaços populares) a um nacional (uma questão dentro de muitas questões, como saneamento, educação e saúde do país). De forma permanente e afetuosa.

Falando claramente, [o maniqueísmo] animaliza. Faz-se alusão aos movimentos arrastados durante o trabalho, ao cheiro que emana das vilas indígenas, às hordas, ao fedor, à reprodução desenfreada, às gesticulações. Demografia galopante, massas histéricas, rostos nos quais não há qualquer traço de humanidade, corpos obesos que não se parecem com nada, preguiça sob o sol, ritmo vegetal, todas essas expressões fazem parte do vocabulário colonial”.

“Disciplinar, vestir, dominar e PACIFICAR são as expressões mais utilizadas pelos colonialistas em territórios ocupados”.

Referências:

 http://www.eltiempo.com/colombia/justicia/homicidios-subieron-64-en-medellin_6879827-1

 http://lahaine.org/internacional/siguen_medellin.htm

 Los paramilitares en Medellín.  La desmovilización del bloque cacique nutibara. Un

estudio de caso. Noreña, 2007 (tese). Link:

Medellín, un modelo de seguridad cuestionable1. Casa de paz, 2009.  Coordenação Fernando Valencia Rivera (artigo)

 Reintegración y Seguridad Ciudadana en Medellín: un balance del Programa de Paz y Reconciliación (2004-2008). Palou, Juan Carlos y Llorente, María Victoria (2009). Link:

 http://www.mdzol.com/mdz/nota/50997-Medell%EDn%A0innovaci%F3n-para-bajar-el-delito/

 http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/08/27/os_grupos_criminosos_armados_suas_atividades_economicas-547973934.asp

 https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2009/10/19/ocupacao-deve-envolver-politicas-sociais-dizem-especialistas/

 Soares, Luiz Eduardo. Segurança Pública: presente e futuro. Revista Estudos Avançados n.20. 2006. (artigo)

 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=42444

 Frantz Fanon, uma voz dos oprimidos.  Link

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