Tags

, ,

por Bruno Moreno

O governo Kirchner, que começou em 2003 com Nestor, após uma crise de institucionalidade sem precedentes na Argentina, e que se desenrola atualmente com a sua esposa, Cristina, possivelmente será visto no futuro como um campo vasto de contradições políticas, cujas ações exarcebou os interesses encontrados deste país. O que nos leva a pensar que ainda é pouco entendido pelos debatedores atuais, com as ferramentas ainda quentes dos interesses, das informações desencontradas (e cada vez mais polarizadas) e da dificuldade de análise junto ao tempo, ainda mais em um país em que os debates saem “às ruas” de forma permanente e quase vertiginosa.

Trata-se de uma liderança política complexa, que reivindica os laços peronistas, mas que gera dissidências graves dentro do próprio partido justicialista. De um governo que mistura a aproximação férrea com os movimentos sindicais e a rivalidade permanente com o principal grupo midiático do país. De pulsões estatizadoras (Aerolíneas e Fundo de Previdência Social) , teoricamente anti-oligárquicas (conflito com o “campo argentino”) e democráticas (Lei Audiovisual, que desconcentra o poder dos detentores de tais empresas) , mas que padece de acusações de enriquecimento ilícito e concentração de poder a quatro mãos. O kirchnerismo é uma “forma de fazer política” que após 7 anos no poder pendulou entre diálogo e conflito em diversos setores da sociedade e que se encontra, atualmente, num campo de batalha aberto e declarado contra a oposição e o setor mais poderoso da mídia argentina.

Difícil traçar uma característica comum de tal governo, tampouco adjetivá-lo de maneira redutora. O kirchnerismo alterna momentos de pragmatismo e atitudes fortemente baseadas em justificativas ideológicas (pelo menos desmembrando discursivamente tótens antes falados por outras línguas, como “oligarquia”, “ditadores”, “força destrutiva do capital”).  Momentos de debate amplo e decisões peremptórias “da noite para o dia”. Oferece fértil munição de críticas aos movimentos opositores (supostas manipulação dos índices oficiais, atitudes “inconstitucionais”, uso do sindicalismo como forma de acosso político, a já referida concentração de poder) mas que sobrevive a uma oposição incapaz de se articular e de aprofundar tais críticas. É uma liderança “sendo” exercida em um campo tão minado, que até a implementação dos projetos enunciados por seus opositores geram controvérsias da mesma oposição (Plano de Assistência Financeira a famílias, com jovens com menos de 18, anunciadas no fim do ano passado). É um quebra-cabeças político dinâmico que apesar de se encontrar em um momento de baixíssima popularidade, mantém maioria nas duas casas, aprova algumas reformas e leis oficialistas e aquece ainda mais a fogueira das vaidades.

Nesta entrevista a Horacio Verbitsky, no Página 12,  jornal de coloração oficialista (sempre bom marcar), Nestor sai à baila após a nova polêmica com o Banco Central e o Judiciário (destituição e volta do presidente da instituição, Martín Redrado, que havia sido colocado lá dentro da lógica e aliança kirchneristas). Um dos poucos momentos em que se é possível entrar dentro do pensamento que comanda a política argentina há 7 anos. Nas linhas que se seguem, Kirchner fala da oposição, das conquistas de Cristina e faz uma auto-crítica com relação à derrota nas urnas (eleições das cadeiras de deputados) em junho do ano passado.

Acertos

Kirchner diz que os acertos de seu primeiro governo foram maiores que os erros. Diz também que ele tinha que “tirar a Argentina do inferno” e que as contradições daquela etapa são diferentes das contradições da atual porque o campo das alianças mudou. E enumera  o respaldo aos julgamentos de militares da ditadura e a revogação das leis assinadas por De La Rúa contra as extradições de tais militares. Fala também dos superávits fiscais e comerciais, da renegociação da dívida externa, da imposição diante do FMI, da recuperação do trabalho, dos 23 aumentos seguidos concedidos aos aposentados, e do salário mínimo mais alto do continente.

Briga contra os grupos midiáticos e a nova Lei Audiovisual

Fala que foi ingênuo ao esperar compreensão para “construir uma Argentina democrática”. Fala que percebeu isso após reintegrar o sistema de previdência social ao governo e que esses fundos, ao serem privatizados, beneficiou a muito poucos e “descapitalizou os trabalhadores”. Fala que Cristina precisa enfrentar um núcleo duro “fechado e desestabilizador”, que se opõe à política de direitos humanos, os setores monopolistas da mídia e uma oposição que “destruiu a Argentina duas vezes e não dá idéias para a construção a partir do caos que eles criaram”. Fala da “Asignación Universal” (plano de assistência a famílias em desvantagem social) como a medida social mais importante em meio século. Fala da incompatibilidade de seu enfoque com a oposição. Os define como desestabilizadores do governo e diz que o kirchnerismo não está sob o jugo do sistema, mas que chegou “para transformá-lo”.

Vice-presidente Julio Cobos

Chama Julio Cobos de “único vice-presidente destabilizador” que a democracia argentina teve desde 1983 e adiciona que ele “goza dos privilégios institucionais de um projeto político ao que traiu e ao qual se posiciona como alternativa”. Critica a idéia machista difundida no país de que ele é a mente do governo. Faz uma auto-crítica e diz que o governo poderia ter se comunicado melhor no conflito contra as entidade agropecuárias em 2008 e que as pessoas que trabalhavam com Cristina na época não estavam à altura das circunstâncias, mas volta a defender a taxação às exportações da soja. Fala do equilíbrio de interesses dentro da sociedade, que organizá-los gera conflitos, mas que eles precisam ser levados “sem ódios”.

Crise internacional

Fala que a sua esposa lidou com muita competência a esse batismo de fogo. Descreve a crise como a mais profunda que a dos nos 30 e afirma que os dirigentes europeus e norte-americanos não sabiam o que estavam acontecendo e que aplicaram as mesmas “medidas defensivas” que tanto criticavam ao serem usadas pelo governo kirchnerista. Indaga que se a Argentina estivesse governada pelo menemismo ou pelo radicalismo de início do século 21, a política teria sido de ajuste fiscal, redução de salários, redução do orçamento das províncias e pactos fiscais de co-participação. Vai à carga contra os que criticam a co-participação entre governo e províncias dizendo que são os mesmos que a defendiam anteriormente.

Reservas e dívida

Volta a elogiar a política de incentivo de Cristina na indústria automobilística, na agricultura, na construção e nos investimentos públicos. Fala que esse investimento fez a Argentina crescer 0,5 por cento, mas que permitiu que não decaísse. Fala das projeções pessimistas que não se concretizaram, que se aumentou a exportação de automotores, de carne, de lácteos. E que apesar da crise internacional, da forte seca que o país viveu, do conflito com “o campo”, as reservas chegaram a quase 50 bilhões de dólares. Sobre a crítica da oposição de que o governo está se endividando, fala que a crítica “não é séria”. Qu estão pagando a dívida contraída pelos governos anteriores e que a dívida equivalia a mais de uma vez e meia o PIB e que agora não passa de 40% dele.

Derrota eleitoral

Fala que de 83 a 2003 estabeleceu-se um pacto de governabilidade liderados pelos interesses hegemônicos que emergiram da ditadura e que autorizavam a subistência de governos eleitos, “desde que não afetassem os seus negócios”. A derrota sofrida nas eleições de junho é fruto de vários fatores. Entre eles a “crise do campo”, que causou uma “confusão na sociedade” e de setores que querem derrubar o governo. Atribue parte dessa “confusão” à perda de poder aquisitivo de setores médios e médios-baixos, que não o relacionaram com a crise internacional e à polêmica da gripe A. Volta a falar na importância da construção de um projeto nacional e que os opositores não o discutem. Volta a falar do “cerco midiático” contra o governo e critica os recursos ilimitados da campanha de De Narvaez (rival político que o derrotou na província de Buenos Aires, celeiro eleitoral de Kirchner). Reconhece o forte simbolismo da derrota e afirma que foram derrotados “pela direita”.

Indec

É questionado pelo entrevistador, que afirma que “a maquiagem das cifras” desvalorizou a palavra pública e o encubrimento da inflação dificultou a análise da real situação econômica dos setores médios-baixos e atrasou uma ação necessária como a “Asignación Universal”. Kirchner interrompe energicamente o raciocínio e replica que a ação foi tomada. Defende a mudança do sistema do Indec, que foi armado em um esquema neoliberal. Fala que havia funcionários do Indec próximos à consultoras privadas, embora diga que a maioria deles é decente. Muda o foco para a reimplementação da metodologia do Indec, trabalho feito conjuntamente com as universidades nacionais, que permitirá criar um sistema fora de qualquer suspeita. Não nega que a polêmica o Indec tenha interferido no resultado das eleições, mas insiste em ponderar sobre os outros elementos citados anteriormente.

Puxão de orelha

Fala novamente da derrota e das lições aprendidas. Lamenta que tenha perdido não para uma força progressista, mas para “o passado”, para “os anos 90”. Critica o governo de Maurício Macri (outra força política rival, governador da capital Buenos Aires, que fez uma coligação com De Narvaez). “(Ele) diz que nós estamos acabados, mas ele ainda não começou”. Fala que ninguém pode negar que o kirchnerismo soube administrar. E que Macri não toma decisões e, quando as toma são as mais insultantes. Faz mais uma auto-crítica ao dizer que fica triste por ter perdido para esse tipo de político e que isso ocorreu por não terem aprofundado e corrigido as coisas que tinham que corrigir. Fala que por isso, após a derrota de junho, o governo acelerou e tomou as medidas que tomou. Questionado sobre projetos importantes de reformas fiscais, financeiras e do Banco Central, e que poderiam ter evitado o problema com Redrado,  que ainda não foram aprovados por ele, se esquiva e diz que estão trabalhando com os autores dos projetos, que nada foi rejeitado e que é preciso fazer as coisas com calma.

Advertisements