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por Bruno Moreno 

Saiu um dos relatórios geopolíticos mais importantes a ser lido e debruçado nos próximos 4 anos. É o “Quadriennal Defense Review Report“, que estabelece as diretrizes estadunidenses quanto a política externa “dura”, apontando as prioridades em termos militares e refocando a lente nas reformas internas e nas “novas ameaças” à segurança nacional de tal país.

 O relatório é direto e sem meias-tintas. Para o pensamento institucionalista e liberal mais polarizados, uma prova de que as ações norte-americanas são concretamente realistas e que os ideais geralmente proferidos de “humanidade” , “mundo livre” e “democracia” senão submetidos a, estão de mãos mais que dadas à projeção de poder material de tal potência ao restante do globo.

 Nesse sentido, a transparência norte-americana funciona: todos podem saber suas prioridades e seus enxergares geopolíticos de forma clara e distanciada dos discursos governamentais vindouros, que esconderão tais enxergares e destacará o que pode ser enxergado para uma aceitação internacional.

 O relatório, por tal importância, será citado mais vezes nesse humilde espaço. No entanto, destacamos algumas partes. Linhas gerais que ainda carecem de uma análise mais profunda.

 Alguns pontos a se ver do QDRR:

 

  • Define-se o momento geopolítico como “tempos de guerra” e coloca, pela primeira vez, os conflitos atuais no topo dos gastos orçamentários. Ressalta o cenário internacional “ameaçador” e a necessidade de modernização militar para deter os grupos não-estatais violentos, a.ka., terroristas.

 

  • Reforça os investimentos e a permanência no Afeganistão e no Iraque, a renovação do esforço para acabar com a Al Qaeda e o Talibã. O interessante é quando enfoca o Paquistão como central  geopoliticamente na Ásia Central e Sul. E diz que tal país é “vital” para os interesses estadunidenenses,  sua própria segurança, e a seguranca regional e global.

 

  • Divide o relatório em dois grandes objetivos: pensar as Forças Armadas para vencer as guerras em andamento e as futuras “ameaças”; reformar as instituições de defesa para assistir as necessidades urgentes do combatente, e do próprio país, transparecendo ao cidadão que os seus impostos pagos estão sendo bem gastos.

 

  • Define repetidamente, ao longo do documento, o cenário internacional, politicamente, como “incerto e complexo”, fazendo referência ao peso de China e Índia no tabuleiro mundial e colocando como preocupação central o “como” essas nações se integrarão ao sistema global. Reforça o perigo da proliferação das armas de destruição em massa. Coloca no centro da mesa “a instabilidade” ou o “colapso” dos países portadores de tais armas como uma das principais preocupações norte-americanas. E, importante, diz que pode “brevemente” ser uma ameaça real ao próprio país.

 

  • Ao falar do papel global da nação, não hesita: os interesses americanos e o papel da nação no mundo exigem Forças Armadas com “inigualável” poder militar e disposição da nação de usá-las em prol dos próprios interesses. Diz que é a única nação capaz de projetar poder em distintas áreas do globo e que isso exige responsabilidade como o organizador de tal liderança.

 

  • Reforça a importância do ciber-espaço nos combates do século 21, assim como na capacidade de expansão operativa (presença e controle) no espaço sideral (satélites e radares).

 

  • Reforço da indústria miliar, associada à “segurança e prosperidade” norte-americanas. Além disso, readaptação do sistema de compra e venda de armas para os desafios do século 21, criticando o atual (oriundo da Guerra Fria) e propondo fortes mudanças para a agilização desse processo.

 

  • O documento se norteia muito pela “nova cara” da guerra, caracterizadas, como no Afeganistão e Iraque, por inimigos se misturando com a população, manipulando informação e empregando uma desafiadora mistura de tática e tecnologia. Uma versão mais online e dinâmica da guerra assimétrica. Além disso, bate muito na tecla das reformas burocráticas para se adaptar aos processos das guerras.

 

  • O documento aborda constantemente a integração sob a óptica do “construir a capacidade de segurança nacional dos Estados aliados” em prol da própria segurança americana.

 

  • Em uma das ocasiões em que o pensamento organiza ações geopolíticas, o relatório enfatiza a importância do Oceano Índico para os EUA, alegando que oferece linhas de comunicacao vitais para o comércio global, as trocas energéticas e a estabilidade regional. Tal pensamento foi proferido e brilhantemente defendido por Kaplan[1] em artigo da Foreing Affairs em 2009.

 

  • Com relação à América Latina, englobada dentro do parâmetro “Hemisfério Ocidental”, os EUA não dispensará muita atenção militar. Pelo menos a programada. A ênfase, mais uma vez, retorna à cooperação com a Colômbia (lida como exitosa), e nas relaçoes entre agências para “controlar o narcotráfico”, “no impedimento de aquisições de armas de destruição em massa”, “segurança da costa continental” e” assistência humanitária”.

 

  • Aborda a situação das mudanças climáticas e diz que as Forças Armadas precisam se adaptar a elas para aumentar sua efetividade, principalmente da Marinha (Ártico). Ao falar da energia, diz que haverá um grande investimento para diminuir os custos dos combustíveis (como os biocombustíveis e a energia elétrica).

 


[1] Ver em: http://www.scribd.com/doc/13722523/powerplaysindianoceankaplan

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