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por Bruno Moreno

nem tão mocinhos, nem tão bandidos

A discussão em torno da participação brasileira no acordo com o Irã por vezes torna-se míope. Pelo menos a trazida pela maior parte da imprensa nacional. Nesse sentido, coincido com articulistas como José Nassif, Paulo Henrique Amorim e Leandro Fortes, ao criticaram o posicionamento dos principais veículos de comunicação do país com relação ao tema. O olhar pouco aguçado pode ser entendido de diversas maneiras. Desde o desconhecimento mais aprofundado das relações geopolíticas atuais no mundo, até as intenções (in)conscientes de reforçar um discurso que podemos ler todos os dias no NY Times: o Irã é uma ameaça nuclear e ponto.

Cabe a outros observadores, geralmente privilegiados pela substancial autonomia dos blogs (como este), tentar oferecer outros olhares diante da questão. Nesse sentido, vale a pena atentarmos para o texto do já referido Leandro Fortes, que começa citando Veríssimo e sua dúvida sobre como um historiador no futuro entenderá um líder (Lula) com tal grau de popularidade e, ao mesmo tempo, tão criticado pela imprensa do seu tempo. E, embora tingido de um indisfarçável panfletarismo, diz argutamente:

A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar o força histórica do momento e suas conseqüências para a  consolidação daquilo que se anuncia, finalmente, como civilização brasileira. O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado, fruto de uma incompreensão histórica que só pode ser justificada pelo distanciamento dos donos da mídia em relação ao mundo real, e da disponibilidade quase infinita de seus jornalistas para fazer, literalmente, qualquer trabalho que lhe mandarem os chefes e patrões, na vã esperança de um dia ser igual a eles[1].

O que se esconde no exercício de revelar

Mas o que essa mídia diz e, ao dizer, não revela? Em linhas gerais, podemos identificar a fala desses grupos eco-midiáticos em alguns raciocínios principais: o Brasil delirou em seus anseios de potência[2]; que é um risco político inútil, já que o Irã desrespeitou outros acordos e há outras prioridades internacionais[3] e o Irã ganha tempo com esse acordo com o Brasil para continuar a produção nuclear[4].

O problema com essas visões é que poucas contemplam os objetivos geopolíticos mais amplos do Brasil. Sabemos que tais objetivos não são claros aos jornalistas e cidadãos (e inclusive a alguns políticos), até pelo caráter estratégico da tomada de decisões, mas precisam ser desvendados para além das reduções disfarçadas de pensamento (ou seja, raciocínios jornalísticos – “falei com tais contatos”, “tais cientistas dizem” – que ajudam a criar reduções. Neste caso: Lula delirante, Irã ameaça nuclear, Brasil em conflito com “o mundo” – ao conflitar com os interesses norte-americanos).

Algumas razões precisam ser entendidas também pelos articulistas, não só por suas fontes e pelos interesses dos veículos. O jornalista pode errar, mas precisa começar a criar a cultura da proposta. Por tal motivo, destacamos algumas informações e convidamos a uma reflexão. Propomos outros olhares para a questão.

Desconstruir a imagem pacífica e altamente democrática dos EUA é dos maiores desafios. No tear jornalístico, esbarra com o difícil equilíbrio de, ao criticá-lo, não cair em anti-americanismos fáceis. Mesmo assim, a maior parte da mídia brasileira fala pouco das ações ofensivas de tal país no resto mundo e menos ainda do caráter estratégico e sustentado de tais ações. Para exemplo, no início deste ano o plano de defesa estadunidense foi lançado. O QDRR, altamente revelador, assim como ofensivo, claro e bélico, pouco foi comentado. Neste caso, as contradições de uma potência são abafadas pelo “revelar” das contradições de um candidato, atrapalhado, à potência. O caráter realista e ofensivo da política externa não é um segredo. Mas torna-se um ao não ser discutido.

Em 2004, William Clark[5] escreveu um provocativo artigo sobre as reais razões dos EUA estarem se mobilizando para uma guerra com o Irã. No texto, o pensador argumentava que a criação de uma “Bolsa Iraniana de Petróleo” seria uma ameaça à supremacia  norte-americana no comércio de petróleo. O perigo seria que as transações passariam a ser feitas em petro-euros, não mais em petrodólares. O pensador Krassimir Petrov lembrava também que Saddam Hussein havia proposto algo parecido em 2000. E, alguns anos depois, também foi rotulado como ameaça, na já conhecida unilateralidade da guerra em Bagdá. Para ele, a real “ameaça nuclear” era uma periferização do dólar no comércio de petróleo da região[6].  O analista político de Harvard, Jerome Corsi, também reforçava essa idéia:

The United States depends on the dollar foreign-currency reserves in order to sell the Treasury debt that sustains budget deficits. What if foreign-exchange portfolios from oil sales fell to 60 percent being held in dollars – would that cause a crisis in the U.S. economy? Or would it take 55 percent? Most Americans are completely unaware of this threat Iran represents to the U.S. economy.  The Iranians, however, are fully aware of what they are threatening, and so are top economic experts within the administration[7].

Alguns anos depois, não sendo a guerra ao Irã deflagrada[8], o correspondente Robert Fisk[9], do The Independent , ampliou essa suspeita, ao dizer que algumas lideranças mundiais (incluindo a China, Japão e Brasil) estavam se reunindo para decidir a abertura do comércio do petróleo para outras moedas (incluindo o yen e o yuan).

O fato é que a Iranian Oil Bourse começou suas operações, recentemente, em outubro de 2009, embora estivesse germinada desde o ano anterior[10].

Outro olhar interessante nos é dado pelo cientista político Robert Pape. Em um trabalho que analisava a importância do Governo Bush mudar sua atitude unilateralista, e aplicar o conceito de soft balancing nas relações com outros Estados, o pensador nos oferece uma ferramenta para questionarmos se as conversas americanas no Conselho de Segurança da Onu, supostamente sob a hégide dialógica do Governo Obama, não esconde a herança bushniana do fazer política externa. Em outras palavras, o pressionar outras potências ao rejeitar o acordo feito com Brasil e Turquia é uma máscara diplomática ao ainda exercido, agora subcutâneamente, uniteralismo criticado de Bush. Em suas palavras:

Soft balancing, however, is not destiny. The Bush administration’s national

security strategy of aggressive unilateralism is the principal cause of soft balancing

and repudiating this strategy is the principal solution. In practice, this

would mean an explicit rejection of the strategy’s most extreme elements (e.g.,

unilateral preventive war), renouncement of the most serious reasons to doubt

U.S. motives (e.g., unilateral control over Iraqi oil contracts), and reestablishment

of the U.S. commitment to solve important international problems multilaterally

(e.g., a renewed commitment to the UN). The reputation of the United

States for benign intent would slowly return, and the incentives for balancing

against it would markedly decline. Although rare circumstances may require

the unilateral use of U.S. power in the future, the security of the United States

would be signiªcantly enhanced if the Bush administration abandoned its policy

of aggressive unilateralism[11].

Neste caminho de ampliar olhares, fica a sugestão ao artigo do professor André Luiz Reis da Silva[12], ao expor os motivos nem tão inocentes de Brasil e Irã nesse acordo, assim como as contradições norte-americanas na questão nuclear e suas escolhas baseadas mais num pragmatismo ofensivo do que na defesa romântica da democracia e da vida.

Nunca é demais lembrar que Brasil e Irã têm uma relação comercial de R$ 2 bilhões de dólares, sendo o país tupiniquim oitavo exportador à terra de Ahmadinejad. Além disso, este último é o segundo maior país em reserva de gás e o terceiro maior de petróleo do mundo. Sendo o quinto maior exportador, cujos maiores compradores são os asiáticos, liderados pela China.

Dados e nomes que, no mínimo, propõem variar o olhar diante da questão, mais do que cristalizar reduções.

O jornalismo brasileiro precisa ter mais coragem para caminhar nesse sendeiro.


[1] Leandro Fortes. “Não Verás Lula Nenhum”: http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/05/18/nao-veras-lula-nenhum/

[2] Eliana Catanhede. “Teste Nuclear”: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/elianecantanhede/ult681u737365.shtml

[3] Miriam Leitão: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2010/05/18/colocar-capital-politico-servico-do-ira-complicado-292550.asp ; http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2010/05/19/brasil-presenca-cada-vez-maior-na-politica-internacional-292881.asp

[4] Entrevista de Abbas Milani a Gustavo Chacra: http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/teera-parte-2-ira-usa-brasil-e-turquia-para-ganhar-tempo-diz-maior-academico-iraniano-nos-eua/. Destaco a tentativa de isenção da cobertura desse colunista. Mas o ressaltar do título, mascará-lo sem análise sob uma entrevista, é uma forma de expressar a linha do jornal.

[5] Clark, William (2004): “The Real Reasons Why Iran is yhe Next Target “: http://globalresearch.ca/articles/CLA410A.html

[6] Pretov, Krassimir: The Proposed Iranian Oil Bourse

http://www.energybulletin.net/node/12125

[7] Will Iran’s ‘petroeuro’ threat lead to war?: http://www.wnd.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=48652

[8] Os motivos são variados e controversos. Mas podemos apontar as dificuldades norte-americanas no Iraque, que causavam problemas orçamentários consideráveis (lembrando que o plano original de ocupação não contemplava uma longa intervenção); a reação adversa da opinião pública a essa intervenção, o que pode ter desencorajado uma nova frente de batalha; a própria força militar iraniana, que pode ter dissuadido o confronto; o protagonismo da China no equilíbrio de poder mundial e no comércio com o Irã.

[9] Robert Fisk: The demise of the dollar. http://license.icopyright.net/user/viewFreeUse.act?fuid=ODI4NzQ4Nw%3D%3D

[10] http://www.presstv.ir/detail.aspx?id=109697&sectionid=351020103

[11] Pape, Robert. “Soft Balancing against the United States”. International Security, Vol. 30, No. 1 (Summer 2005), pp. 7–45

[12] http://mundorama.net/2010/05/18/as-relacoes-do-brasil-com-o-ira-e-a-questao-nuclear-por-andre-luiz-reis-da-silva/

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