Artigo combativo e revelador do economista e professor do Colégio do México (português e espanhol), Alejandro Nadal (foto).

 Nele, Nadal expões três grandes mitos que regem a ortodoxia econômica, a mesma que cristaliza ditames , transformando-os em verdades inalteráveis, quase messiânicas (já dizia Milton Santos que a teoria deve nascer para ser derrubada. Ela serve a um tempo, à construção de um ideário conjectural. Caso contrário, torna-se uma espécie de dogma).

 O primeiro mito é a auto-regulação ideal e eficiente do mercado, que só é prejudicado pela suposta intervenção de algum governo. É o mundo dos modelos matemáticos que tudo explicam, esquecendo muitas vezes o que a mestra Maria da Conceição Tavares diz: “toda economia é economia política”.

O segundo mito é entender a economia como uma casa. Daí a ideia de que quando os tempos estão difíceis, é preciso apertar o cinto. Como ele afirma:

A realidade é diferente. Para começar, as famílias não podem estabelecer carga fiscais e colectar receitas através de impostos. Nem vi famílias que vivam centenas de anos, que incorram num défice constante e que acumulem dívida, como fazem os governos. No limite, os governos podem emitir moeda, algo que os particulares também não podem fazer. (…) Se você observar com cuidado o comportamento da Reserva Federal dos EUA pode constatar que a política monetária não se assemelha nada ao comportamento de uma família.

O terceiro mito é algo que deve ser entendido para além também da questão política, merecendo uma análise sob o viés da alteridade, do outro sendo entendido sempre como outro, e de alguns preceitos bem ocidentais, como o indivíduo e a razão: cada classe social ou grupo recebe como remuneração aquilo com que contribui para a economia. Quem contribui mais, recebe mais. Há justiça no sistema de distruibuição de riqueza. Em uma frase que merece intensa reflexão, Nadal afirma:

 A distribuição de rendimento não está determinada por qualquer lei ou outro mecanismo económico. Simplesmente e apenas depende das relações de poder.

Em tempos em que a ortodoxia é a voz preponderante,  é válido pensá-la enquanto forma de relações de poder, tanto material, quanto de formas mais subterrâneas de ascendência, como o tear eurocêntrico de nosso entendimento do mundo: os bruxos que dizem usar a razão inviabilizam historicamente os pensadores que não acreditam inteiramente nela.

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