por Bruno Moreno (jornalista e educador)

Obama se reunirá com os principais CEOs dos Estados Unidos. O assunto será educação. Mas um outro tipo de.

Em matéria do Wall Street Journal dessa semana, a jornalista Stephanie Banchero afirma que o presidente estadunidense quer incentivá-los a “investir mais em iniciativas educacionais, especialmente as que ele defende, como a melhoria da qualidade do ensino e programas para a primeira infância”. O medo que permea essa iniciativa é a chamada “crise educacional crescente” do país, que vem supostamente perdendo a batalha diante das mentes de outras nações. O Bank of America, por exemplo,  investirá US$ 50 milhões para preparar estudantes de baixa renda do ensino básico a entrar na faculdade. A Microsoft, US$ 15 milhões para financiar conteúdo pedagógico com base em videogames. O fato é que, como estamos vendo no Brasil, as empresas já foram míopes por tempo demais: não investir em educação vai contra o próprio projeto do capitalismo global atual (no caso tupiniquim, o desenvolvimento baseado em mão-de-obra barata e ambientes político-sociais excludentes e concentradores baseados na deseducação formal, na pobreza vista como ferramenta,  cobram o seu preço àqueles que hoje se esgoelam em artigos “reclamando” de um tal apagão).

As discussões deveriam, em nosso país, começar a trilhar esse caminho,  paralelo aos debates mais fundamentais como as condições básicas do ensino (salários, estrutura, a desestrutura da rede proteção social, a metodologia, formação de professores, o “cuidar” dos professores e por aí vai). Os pontos são muitos, e também muito complexos.

Obama vem defendendo um projeto educacional chamado “Corrida para o Topo“, de orçamento de 4,35 bilhões e que premia estados que relacionam a avaliação de professores à avaliação da nota dos educandos, reformam escolas de mau desempenho e  permitem as escolas “charters”, que recebem recursos públicos mas não têm “limitações” (nas palavras absurdas da jornalista) como aceitar professores sindicalizados. E é nos objetivos do próprio programa estadunidense, não tão distantes de algumas mentes pedagogoempresariais prejudicadas, que pode-se começar um diálogo. O foco é no aprendente visto como força de trabalho. Seu aprendizado, condicionado aos ditames do mercado.

A  doutora em educação e ex-funcionária do governo Bush Diane Ravitch, em corajoso artigo ano passado, expõs as perigosas armadilhas de se pensar assim. Ravitch desmembra os crimes que vêm sendo cometidos ao se refletir apenas os resultados na educação: o ensino está, na verdade, piorando. Os professores estão no limite, e passarão dele se depender das “charters”. O aprendente está sendo abandonado à ditadura do funcional em detrimento da educação integral. Apesar de todos os problemas enumerados pela autora:

Ainda assim, o modelo tem fama de ser o “remédio milagroso” para todos os problemas do sistema educacional americano. Para a direita, é claro, mas também para um bom número de democratas. Esses últimos chegaram, inclusive, a formar um grupo de pressão: os Democrats for Education Reform (Os Democratas pela Reforma da Educação). Seu modelo de funcionamento se baseia em uma forte taxa de renovação do pessoal, pois os professores são obrigados a trabalhar muito (às vezes 60 ou 70 horas por semana) e a deixar o telefone celular sempre ligado, para que os alunos possam localizá-los a qualquer momento. A ausência de entidades de classe facilita esse tipo de condição de trabalho e é impensável que se possa estender esse funcionamento ao conjunto do país, mesmo que seja porque ele impede que os professores se ocupem da própria família.  

São tantos os absurdos desse programa, e da educação sendo vista como função de um mercado, que falar brevemente, apesar de estar sendo feito neste espaço, é uma temeridade (a sugestão é ler o artigo). No entanto, alguns pensadores do capital já o estão fazendo no Brasil. Perigosamente, esse viés começa a ocupar um espaço importante em toda a questão educacional, sendo visto até como uma solução para um “problema insolúvel”. Qual seria ela? Educar para o desenvolvimento. A solução? As empresas começarem a dividir o fardo pesadíssimo do educar. O antecipado cancro? Além de se perder as questões mais fundamentais do descaso pedagógico brasileiro, substituí-la pelas simplificações e reduções que invariavelmente virão do pensamento mercadológico. Em suma, os CEOs, donos da bola, vão “construir”, “instruir”, “formatar” jogadores para resultados imediatos e para serem vendidos a preços exorbitantes no mercado. O exemplo é frágil, mas a imagem consistente: o tal jogador, ser humano inserido em um processo social e histórico que muitas vezes o subjuga, ficará longe do pensamento crítico. As elites, mais uma vez donas da bola de acordo com esse viés, não gostam de pensamento crítico.

  “É como despejar um balde no oceano”, disse um educador americano contra esse pensamento. Ou, nas palavras da própria Ravitch, ao terminar sua análise sobre as “charters” estadunidenses, mas que podemos usar em nossas semi-pedagofagias:

(…)a expansão das charter schools vem realizar o velho sonho dos homens de negócios da educação e dos partidários do mercado total, que aspiram ao desmonte do sistema público

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