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Manuel Castells, retirado do La Vanguardia.

Tradução livre: Bruno Moreno

Quando milhares de “indignados” afirmam que não é uma crise, mas que é o sistema o causador dos múltiplos problemas que nos afetam, estão dizendo algo tão básico como que se as raízes não forem tratadas, se persistirem as causas, as mesmas conseqüências serão produzidas.

Mas de que sistema estamos falando? Muitos diriam “capitalismo”, mas isso é pouco útil, pois existem muitos capitalismos. É preciso partir do que se vive como crise para entender que não é uma patologia do sistema, mas o resultado deste capitalismo. Mais ainda, a crítica se estende à gestão política. E surge no contexto de uma Europa desequilibrada por um sistema financeiro destrutivo que está levando à crise do euro e suscitando a desunião europeia.

Nas duas últimas décadas, constituiu-se um tipo de capitalismo global dominado por instituições financeiras (os bancos são apenas uma parte) que vivem de produzir dívida e cobrar por ela. Para aumentas seus lucros, as empresas financeiras criam capital virtual usando derivativos, além de emprestarem umas às outras, incrementando o capital circulante e, portanto, os juros a receber. Em média, na Europa e EUA, os bancos dispõem apenas de 3% do capital que devem, e são considerados solventes se chegarem a 5%. Os outros 95% circulam incessantemente e são diluídos em múltiplos credores e devedores que se relacionam por um mercado volátil escassamente regulado.  Dizem que algumas transações compensam outras e o risco é repartido. Para se protegerem, compram seguros. No entanto, as seguradoras também emprestam o capital que deveriam reservar. Todos ficam tranqüilos porque se pressupõe que, em último caso, o Estado (ou seja, nós) abarcará as perdas, desde que sejam grandes o suficiente. O efeito perverso deste sistema, operado por redes informáticas e modelos matemáticos sofisticados, é que quanto mais se empresta sem garantias, mais rentável (para as empresas financeiras e seus investidores) fica. E aqui entra outro fator: o modelo consumista que busca o sentido da vida, comprando-a de forma precária.

Como o maior investimento das pessoas é sua própria casa, o mercado hipotecário (alimentado com juros reais negativos) virou um paraíso e estimulou uma indústria imobiliária especulativa e descomedida, depredadora do meio ambiente, que se alimentou de trabalhadores imigrados e dinheiro emprestado a custo zero. Diante da bonança, restaram poucos empreendedores para apostar na inovação. Inclusive empresas tecnológicas, grandes ou pequenas, usaram seu negócio como base para a própria revalorização na bolsa de valores.  Não eram os lucros da empresa, mas seu valor capitalizado o que realmente contava. Para muitos inovadores, serem comprados era a máxima aspiração. A chave desta pirâmide especulativa era a imbricação de toda essa dívida, de forma que os passivos se transformariam em ativos para garantir outros empréstimos. Quando os empréstimos não puderam ser mais pagos e as falências de empresas e pessoas começaram, as quebras se propagaram em cadeia até chegar ao coração do sistema: as grandes seguradoras. Diante do perigo de colapso de todo o sistema, os governos salvaram os bancos e instituições financeiras.

Quando o crédito às empresas secou, a crise financeira se transformou em industrial e empregatícia. Então os governos assumiram o custo do desemprego e da reativação econômica. Como aumentar impostos não traz crédito político, pediram dinheiro emprestado aos mercados financeiros, incrementando sua já elevada dívida pública. Quanto mais especulativas eram as economias (Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha) e quanto mais imediatistas os governos, maior gasto público e maior a dívida. Como a dívida era em euros, os mercados continuaram emprestando, contando com a União Europeia. O resultado foi a crise fiscal de vários países, ameaçados de suspensão de pagamentos. A crise fiscal se transformou em nova crise financeira ao questionar o euro e ao aumentar o prêmio do risco aos países suspeitos de futura insolvência. E como a dívida dos países estava nas mãos de bancos alemães e franceses, era preciso salvar os países para que os bancos fossem salvos. A condição foi impor a austeridade em gasto social e a redução de empresas e emprego do setor público, com perda de soberania econômica de vários países, incluindo a Espanha. E assim se chega ao desemprego, aumento do número de greves, redução salarial e cortes de serviços sociais, coexistindo com lucros sem precedentes para o setor financeiro. Claro que existem algumas caixas e bancos que devem ser sanados, mas aí sofrem intervenção, são vendidos e a roda segue. Por isso a crise não é do sistema, porque o capital financeiro sai como vencedor por impô-la a pessoas e governos; e de passagem disciplina os sindicatos e os cidadãos. A crise, assim, se transforma em crise política.

 Isso porque a outra característica fundamental do sistema não é econômica, mas política. Trata-se da ruptura do vínculo entre cidadãos e governantes. “Eles não nos representam”, muitos dizem. Os partidos vivem entre eles e para eles. A classe política é uma casta com um interesse comum em manter a distribuição do poder usando um mercado político-midiático a cada quatro anos; se auto-absolvendo de corruptelas e abusos usando a indicação política da cúpula do poder judiciário. Assim assegurado, o poder político pactua com os outros dois poderes: o financeiro e o midiático, que estão profundamente imbricados.

Se a economia da dívida prosseguisse e a comunicação continuasse controlada, as pessoas iriam continuar suas vidas sem se importar. Esse é o sistema. E por isso eles se achavam invencíveis. Até que a comunicação se tornou autônoma e as pessoas se envolveram. E juntas perderam o medo e se indignaram. Para onde elas estão indo? Cada um tem suas próprias ideias, mas existem temas comuns: que os bancos devem pagar pela crise, o controle de políticos, a internet livre, uma economia de criatividade e um modo de vida sustentável. E, sobretudo, reinventar a democracia sobre valores de participação, transparência e prestação de contas ao cidadão. Porque como dizia um cartaz: “Não é a crise. Só não te quero mais”.

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