Propaganda anti-japonesa durante a Segunda Guerra. A ameaça tinha e ainda tem "olhos puxados".

No último mês, em meio à crise global e o prosseguimento dos conflitos no Meio Asiático, algumas notícias da China vêm chamando nossa atenção.

Uma delas é o recente lançamento do primeiro portaaviões do país. O governo americano, como se esperava, declarou sua “preocupação” em relação ao fato. O argumento central é, de acordo com Victoria Nulando, porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, a falta de transparência dos bastidores militares chineses, o que os leva a cogitar a projeção de poder do país em direção aos vizinhos e, principalmente, Taiwan.  Outros analistas argumentam que o portaavião não é uma ameaça militar em si, já que sua capacidade é limitada, não há expertise chinesa para projetar poder com o navio de guerra e, por isso tudo, ofereceria pouca resistência em um conflito com os EUA.  No entanto, os motivos de preocupação não desaparecem: o portaaviões é só o primeiro passo de um plano maior de ocupação marítima chinesa nos mares do sul, ponto inicial da expertise ainda não tida e, principalmente, fará os vizinhos aumentarem a percepção de que a China é uma ameaça.

O que nos mais é interessante nessa nuvem palavratória vaga é o discurso que se oculta, como sempre. Sob os interesses geopolíticos dos EUA, o temor de uma invasão chinesa ao Taiwan, jaz o ideário, espantosamente cristalizado, de que o perigo sempre vem do “outro”.  É quando o “apesar de” faz-se presente, sem estar, no discurso que quer escondê-lo. Apesar do orçamento de Defesa estadunidense ser de 600 bilhões de dólares (contra cerca de 90 bilhões da República Popular), apesar dos EUA possuírem 11 portaaviões, apesar da China ser o único país no Conselho de Segurança a não ter um, apesar de extenso relatório, o White Paper, acerca dos objetivos e fatos na defesa chinesa lançado este ano, inclusive elogiado por autoridades canadenses, apesar da impossibilidade se esconder uma arma militar desse tamanho, e de todas as contradições inerentes à posição estadunidense no mundo,  persiste a a ideia de que a China é uma ameaça. E que “eu”, portanto o não-outro, sou ao mesmo tempo o espelho reverso e a não-imagem possível daquilo que não me é. Continua-se a formulação de Saiid que o Oriente, no caso a China, é um “fato inerte da natureza”. Ele está ali, ele é um perigo. E o argumento, em essência, baseia-se nisso.

Preferimos ficar com a desconstrução crítica, a desconfiança e as perguntas, em vez da assertividade cada vez menos crível dos discursos de poder.

 De acordo com uma recente coluna no jornal estatal People´s Daily, de autoria de Wen Xian:

 Is China’s aircraft carrier invisible or miniature? Since you know where it is, why did you say it is not transparent. On the contrary, when U.S. aircraft carriers were sailing in the coastal waters of China or the U.S. high-altitude spy planes were frequently flying above China’s coastal regions, did the United States inform China “transparently?” (…) Why should China’s acquisitions policy and defense spending be such a concern when the United States still enjoys such a massive conventional superiority?

Ou, na genialmente atual formulação de Said, ao falar da política externa das potências:

Reflexão, debate, argumentação racional, princípios morais baseados na noção secular de que o ser humano deve criar sua própria história – tudo isso foi substituído por ideias abstratas que celebram a excepcionalidade americana ou ocidental, denigrem a relevância do contexto e veem as outras culturas com desprezo e descaso.

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