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O FMI deu uma boa notícia para o Chile: o país vai crescer 6,5% este ano, apesar da crise mundial. A demanda interna vai subir 7,8%. A inflação está controlada em 4%. A taxa de desemprego, em razoáveis 7,2%. A instituição, além disso, destacou que “o consumo vai se beneficiar do forte crescimento da oferta de emprego e salários firmes, enquanto os gastos da reconstrução após o terremoto continuarão sustentando os investimentos”. Como se não fosse bom o bastante, afirmou que
“a capacidade de recuperação do Chile se sustentou em políticas sólidas, que incluem regrasi fiscais, metas de inflação e flexibilidade no tipo de câmbio, além de um sistema bancário saudável”.

Em uma primeira análise, a notícia, por si só, garantiria a reeleição do atual presidente Sebastian Piñera. Se a medida de todas as coisas fosse ecônomica, bastariam os números. No entanto há pessoas, infelizmente, diriam alguns, a governar. E essas mesmas pessoas são as responsáveis por sua popularidade estar em queda vertiginosa no país (52% de reprovação de seu governo, apenas 26% de aprovação, a pior avaliação de um presidente chileno em duas décadas).

Essas pessoas, que possivelmente não leram o relatório do FMI, entraram em greve.

Greve geral hoje e amanhã no Chile.

Às manifestações dos estudantes chilenos, que há mais de dois meses reclamam o fim da lógica de mercado na educação do país, além da gratuidade do ensino público (100 mil estudantes encontram-se em situação de inadimplência), se juntam à CUT, Central Unitaria de Trabajadores que, junto a a organizações de professores, jornalistas, escritores, agrupações de direitos humanos, sindicatos e federações do transporte, indústria e empresas públicas, reivindica “os direitos sociais e cidadões” e reitera ” a necessidade de um novo “modelo econômico no país, além de uma nova Constituição e um novo Código Trabalhista”. Cerca de 80% do funcionalismo público chileno aderiu à greve (apesar do governo ter declarado o “grande fracasso” do movimento, com a adesão de apenas 5% do funcionalismo).

As reivindicações são profundas, exigem reformas estruturais e, para alguns analistas, têm como alvo o desmonte do Estado, aprofundado pela lógica neoliberal através dos anos, que levou a uma desigualde crescente no país: 20% dos mais ricos têm uma renda 14 vezes maior que a média dos 20% mais pobres. Diz a Cut, mostrando a polarização atual no país:

sabemos o que os trabalhadores perderam durante todos estes anos. Sabemos o que os trabalhadores perdem todos os dias, enquanto os grandes consórcios privados e as trasnacionais continuam com seus lucros milionários . Quem está preocupado com a greve são os ricos, os empresários, o governo de direita, que não quer entender o que as pessoas estão exigindo. Mas os trabalhadores sabem que devem se mobilizar e as pessoas irão às ruas manifestar-se pelos seus direitos”

Ley de Seguridad e falsa normalidade

O governo diz que o clima é de normalidade, os fatos desmentem o argumento e o próprio conceito: paralisações em todo país. Apesar disso, Sebastian Piñera fez questão de criminalizar tais movimentos ao lamentar que algumas pessoas estejam “trabalhando para que o Chile pare”. Além da retórica, o punho. O governo anunciou, na segunda, a possibilidade de usar a “Ley de Seguridad”, que permite o uso da força pelo corpo policial e a prisão de manifestantes. Andrés Chadwick, porta-voz oficial, responsabilizou de antemão a CUT pelas consequências da greve e a considerou “ilegal e completamente injustificada“. A fala foi duramente criticada por José Miguel Insulza, secretário-geral da OEA, que disse que não é hora de reprimir manifestações, que acha o movimento estudantil responsável e pacífico, e que comparou os fatos recentes no país aos protestos no final dos anos 60, que levou o Chile a uma reforma universitária.

A greve é apoiada pela “Concertación”, frente política histórica de alguns partidos de oposição, da ex-presidenta Bachelet, que também teve seu silêncio criticado pelos estudantes.

Apesar disso, e certamente por causa disso, alguns parlamentares da coalizão apresentaram ao governo uma proposta de reforma na educação. O deputado do Partido Socialista, Carlos Montes, disse:

Impuseram ao país um modelo educativo que nunca foi discutido democraticamente, que dizia que aqui tudo devia ser regulado pelo modelo da competição e do mercado. Hoje, ninguém pode discutir. E podemos garantir que isso não adiantou nada e os objetivos de diminuir as desigualdades não foram atingidos. Por isso, assumimos as bandeiras de luta dos estudantes e também respaldamos as mudanças estruturais exigidas”.

Somos tão jovens

Do lado estudantil, as manifestações vão adquirindo tons quase épicos. Além dos três meses de intensa mobilização, da comoção em torno da greve de fome de alguns jovens, da capacidade de se articular e ferir o governo, alguns universitários fizeram uma marcha de 120 quilômetros, de Santiago a Valparaíso,  até a sede do Legislativo, em um ato simbólico.

A mensagem entregue foi simples: “Que se legisle o que povo exige”.

As manifestações obrigarão aos formuladores das políticas a repensar suas formulações? É um exemplo de que a apatia do povo (que se absteve em massa nas últimas eleições) não é tão apática assim? É a prova de que há poucas respostas à pergunta “onde está o poder do poder”?

O fato é que os últimos acontecimentos são um duro golpe à democracia representativa que não representa, mesmo quando as notícias econômicas são tão alentadoras para alguns.

Para alguns. Não para todos.

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