Os chamados micro-textos, presentes em redes sociais como Twitter e Facebook vêm gerando discussão sobre a própria natureza de sua existência, seu lugar nos olimpos das informações, sua força enquanto fonte legítima de conhecimento e debates. Acreditamos que apesar de seu desenho veloz (na intenção de quem lê e/ou escreve, na plataforma em que é lançado), de sua forma e conteúdo caóticos, fragmentados, pode ser visto e pensado como uma poderosa ferramenta no entendimento dos fatos cotidianos, indo além do puramente informativo ao manter seu caráter crítico.

Exemplo disso foi o recente assassinato da juíza Patrícia Acioli, a conseqüente prisão do tenente-coronel Claudio Luiz de Oliveira, acusado de ser o mandante do crime, e a crise instalada na secretaria de Segurança Pública do Estado do RJ com o pedido de exoneração do Comandante-Geral da PM. Os fatos, que levam a um questionamento mais amplo acerca da segurança pública no estado, das relações de poder que envolvem, das alianças políticas e clientelistas que revelam, passaram pela ótica aguçada e qualificada de um dos maiores (senão o maior) especialista no assunto no Brasil: Luiz Eduardo Soares.

Em seu microblog, Soares disparou, em menos de uma hora (de 14h58 a 15h41, sendo o último parágrafo comentário posterior) questionamentos fundamentais que lançam luz aos intricados movimentos dos atores em questão, entre eles, a PM, o Ministério Público e o governador Sérgio Cabral.

Apenas compilamos, corrigimos as abreviações e colocamos em ordem as idéias de Soares. Sem nenhuma intenção de descontextualizá-las ou mudar, pela forma, seu conteúdo, ou, por posterior, retirar a emoção do momento da escrita, acreditamos que trata-se de valioso artigo (por que não?) sobre o caso. Acreditamos que a natureza incessantemente “atualizatória” do lugar de onde a fala é dita, a Internet, não deve apagar o que de bom é dito com a mesma natureza, usando a mesma plataforma. O tempo, devorador, mas também construtor, deve se encarregar de manter algumas coisas.

Segue artigo:

Tenente Coronel mandou matar juíza. Mídia chocou-se com envolvimento do estrato superior da Polícia Militar. Eu, não. Fui demitido do governo do RJ, em 2000, por dizer isso.

Não basta caçar criminosos nas polícias. A fonte será inesgotável enquanto perdurarem cultura e estrutura organizacional herdadas da ditadura. Amigos do Ministério Público (MP), responsável pelo controle externo das polícias: algum de vocês acha que o MP está cumprindo seu papel? E que bastará punir indivíduos? Como punir só desvios de conduta individuais nas polícias se brutalidade letal e participação em crimes é padrão institucionalizado?

Editoriais bradam contra envolvimento de policiais em crimes e pedem punições e afastamento de culpados. Não veem o padrão institucionalizado? Ante milhares de casos de envolvimento de policiais no crime organizado e em execuções extra-judiciais, eu digo: “é a instituição, estúpido”. Se os casos individuais se repetem em larga escala e formam padrões previsíveis e regulares, é porque não são casos individuais, ora bolas. Alô!!! Os casos “individuais” reproduzidos revelam padrão institucionalizado, oriundo da cultura e estrutura organizacional e da política de segurança

Política de segurança não “manda” que policiais executem extra-judicialmente e participem do crime organizado, mas não desmonta a máquina que manda. Se há padrão institucionalizado policial que mata e nutre crime, se isso provem de fatores desprezados pela política de segurança, Cabral é culpado.

Retórica dos editoriais só veem casos individuais a serem punidos. Gera-se um cortejo de omissões. A reforma das polícias continua fora da pauta

O que a Comissão da Verdade tem a ver com a prisão do tenente-coronel da PMRJ? Tem tudo a ver. A cultura policial (guerra x direitos) é herança da ditadura.

 

 

 

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