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Saskia Sassen, professora de sociologia da Columbia University e uma das maiores vozes em globalização, fala sobre os movimentos “occupy” em Wall Street e no mundo.

Abaixo entrevista ao jornal português Público.

A holandesa Saskia Sassen (1949) é uma das principais teóricas da globalização. Professora na Columbia University (Estados Unidos), cunhou o termo “cidade global” e, mais recentemente, desenvolveu a ideia da “rua global”. Autora de “The Global City”, “The Mobility of Labor and Capital”, “Globalization and its discontents” ou “Sociologia da Globalização” (pela brasileira ArtMed), Sassen tem reflectido nos últimos 20 anos sobre os impactos da globalização. Olhou de perto os protestos que aconteceram sobretudo em grandes cidades de todo o mundo, diz que estão a fazer História, mas “isso não significa que o sistema vá mudar”. Os protestos criaram também um espaço de contestação ao qual os que estavam descontentes se juntam e percebem que não estão sozinhos e nasceram num tempo em que o contrato social falhou, diz. Conversa ao telefone com a especialista que viveu em vários países e hoje está entre Nova Iorque e Londres.

Disse que a cidade é o espaço onde as pessoas “sem poder” podem fazer História. Os protestos globais marcados para hoje estão a fazer História?

A cidade tem a capacidade de permitir que os sem poder façam História porque em primeiro lugar há uma enorme diversidade de pessoas – 500 pessoas numa cidade não é o mesmo que 500 pessoas numa plantação, onde são iguais – e essa diversidade pode-se cruzar. Isso é muito importante. Mas quando falo da possibilidade dos sem poder fazerem História isso não significa que se tornem poderosos – mas podem fazer História na mesma.

Sim, já estão a fazer História. As pessoas em Telavive que demonstraram pela primeira vez as suas reivindicações sociais fizeram História. Nos Estados Unidos há um enorme grupo de pessoas que não sabia o que pensar sobre o actual sistema económico e que agora está a criar uma narrativa com a qual outros se podem identificar. Há todo o tipo de pessoas que agora sente que não está sozinha na sua luta pela sobrevivência, na sua raiva, e no seu sentimento de injustiça social e económica. Isto é imensamente importante.

Mesmo sabendo que não vão conseguir que a sua agenda seja reconhecida pelo sistema financeiro eles terão criado uma narrativa e uma explicação das coisas que permite o desenvolvimento de uma tomada de posição de princípios – agora há esta narrativa alternativa. Nos Estados Unidos, havia pessoas que estavam preparadas para se juntar mas não encontravam sítio, havia pessoas preparadas para discutir o que está errado no nosso sistema, porque é que esta distribuição de benefícios não é bonita – e agora, de repente, há qualquer coisa à qual se podem juntar. Isto não quer dizer necessariamente que as pessoas estejam mais poderosas ou que o sistema vá mudar. Mas estes sistemas que abusam do seu próprio poder hão-de implodir – isso aconteceu com a ditadura em Portugal e em Espanha e noutros sítios.

Como é que os protestos pela democracia no Cairo se ligam aos protestos em Espanha, no Chile, ao Ocuppy Wall Street ou aos motins em Londres (que considerou serem também uma forma de protesto)?

Essa ligação tem que ser feita com grande cuidado. Algumas pessoas falam de contágio, eu não gosto da palavra. Cada um dos protestos tem na sua génese a acumulação de injustiças específicas. Os Estados Unidos são diferentes do Reino Unido e certamente do Egipto. Mas isto é uma face da globalização: há um sistema estrutural que produziu enorme desigualdade e roubou a uma geração da classe média o seu projecto, em que cada geração teria melhores condições de vida que a anterior. Embora as condições e as origens sejam diferentes em cada sítio, chegámos a um tempo em que o sistema é global e tem no seu coração este alinhamento estrutural. Isso é assim nos países ocidentais, mas também no Egipto e na Tunísia onde se reproduziu este sentimento profundo de dor, de injustiça, de raiva. O que há é um acto de comunicação em todo o mundo e um espaço aberto de contestação no qual se tenta explicar o que está mal, um espaço para o qual as pessoas não precisam de comprar um bilhete para entrar, nem concordar com os políticos.E nesse sentido qual é o papel das redes sociais?

As redes sociais são importantes, mas é puro non-sense dizer que isto são revoluções do Facebook ou do Twitter. Se não existissem as condições estruturais que criam injustiças e desigualdades não haveria estes protestos. Isto nasce da partilha de experiência de injustiça num tempo de profundo falhanço do contracto social. Não se trata apenas de um acontecimento ideológico: isto é sentido por cada uma destas pessoas. Mesmo nós, os que temos bons salários e boas carreiras, também sentimos que há uma falha no contracto social – as pessoas responsáveis pela falha do sistema financeiro deviam ir para a cadeia, mas a lei não o permite. Sim, as redes sociais são importantes, mas ampliam um acto de comunicação, não o geram.

Diz que há uma nova classe global que não é a burguesia, nem classe operária, mas precisa de ser levada em consideração pelas relações internacionais: é esta a nova classe a que se refere?

Há duas classes globais importantes. Uma é uma mistura de governantes no topo, entidades oficiais, pessoas do capital corporativo, etc. A outra é uma classe de pessoas que está em desvantagem – e não se trata de uma questão de pobreza. A juventude na Praça Tahrir, em Londres, em Telavive que aprendeu o que o contracto social lhes ensinou – se se trabalhar no duro, estudar e ter um diploma, ter-se-á uma vida razoável -, e também as pessoas de classe média, foram despejadas do projecto da classe média. E nesse sentido houve uma violação do contracto social.

O que aconteceu é que no último ano a crise aumentou a falta de esperança. Cada protesto tem na sua génese um factor crítico. A razão porque o Ocuppy Wall Street se tornou nacional é porque há pessoas que estão a sentir o mesmo em todo o país. Por isso digo que estão a fazer História.

Pegando no slogan “Somos os 99%”: acha que é uma espécie de “classes sem poder do mundo uni-vos”?

Pode dizer isso. As pessoas no Chile ou nos Estados Unidos experienciam-no de formas diferentes, mas o cidadão médio americano sabe que há qualquer coisa errada. Há uma realidade para os 99% nos Estados Unidos. Diria que há cerca de 20% que está OK. E menos de 1% que está na estratosfera. O resto dos cerca de 80% não está, e isso é imenso num país que tinha uma classe média alargada e próspera. Acontece também em Espanha, na Grécia, na Alemanha, no Reino Unido. Isto é enorme, é a primeira geração de classe média jovem – embora existam também pessoas mais pobres – que trabalhou no duro, esperava que alguma coisa acontecesse e depois bum!, esbarram com uma era económica que a engole.

Por exemplo, Nova Iorque é uma cidade que é ao mesmo tempo uma máquina de grande desigualdade e criadora de grande riqueza. E sempre teve esta desproporção. Em 1980, o topo dos 1% tinha 12% de todos os ganhos produzidos em Nova Iorque. Em 2009, esses mesmos 1% recebia 44% de todos os ganhos produzidos em Nova Iorque. Isto sente-se em coisas pequenas. A questão nos Estados Unidos é que uma das mensagens que está a passar no movimentos do Occupy é: “agora sei que não sou apenas eu”. O que acha que precisa de acontecer para que estes movimentos se transformem numa mudança global e concreta?

Cada um vai enfrentar diferentes possibilidades e obstáculos em diferentes países. Claramente o Egipto é muito diferente dos Estados Unidos. Os Estados Unidos, o Reino Unido, de alguma maneira também França, Portugal, Grécia estão no meio de uma estrutura económica muito poderosa. E isso não vai desaparecer. Mas acho que há medidas muito concretas que podiam ser tomadas, mas que precisavam de uma classe política inteligente e decidida que não existe porque os políticos encaram o seu trabalho como um trabalho e não como serviço a uma missão.

O que se pode fazer é reorganizar a produção. Porque é que temos que importar mobílias baratas da China? Vamos fazê-las nas regiões à volta das grandes cidades, vamos tornar a produção local – todos os países o têm. Devíamos também re-localizar os créditos, criar pequenas associações de crédito, pequenos bancos: porque é que os bancos de retalho têm que estar nas mãos dos grandes bancos? Há muito que se pode fazer, inclusivamente dentro do próprio sistema actual. Isso vai alterar o poder do mercado financeiro? Não. Mas pode ser um passo no espaço económico em que os locais têm mais controlo e haverá maior resposta às necessidades locais. Para os projectos locais é preciso bancos locais que os financiem. Os bancos locais dependem das pessoas locais, mas devolvem o dinheiro à produtividade local. Seria um pequeno passo para criar um outro espaço económico. Mas isto não é apenas uma questão económica, depende da política económica

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